Tudo sobre: Distúrbios da Imunodeficiência Primária

Introdução

Cães e gatos, assim como outros mamíferos, possuem basicamente dois tipos de imunidade, uma inata, mediada por células (neutrófilos, linfócitos, macrófagos entre outras) e outras barreiras fisiológicas, e um segundo tipo, mediado por células e anticorpos, chamada imunidade humoral. Os distúrbios de imunodeficiência primária são anormalidades do desenvolvimento do sistema imune resultante de defeitos herdados ou congênitos. Em animais domésticos, diversos distúrbios foram descritos, porém a falta de investigação mais aprofundada e a escassez de recursos para isso talvez gere subestimação dos dados existentes. Esses distúrbios podem ter origem na ineficiência da produção de proteínas importantes na constituição do sistema imune e também em defeitos celulares com comprometimento da resposta mediada por células. 

Os distúrbios da imunodeficiência primária afetam primordialmente animais de raças puras e os tipos de função imunitária comprometida estão relacionados mais especificamente a algumas raças, muito devido a cruzamentos consanguíneos. Os distúrbios geralmente são notados pelo médico veterinário quando o animal começa a apresentar sucessivas infecções, logo depois do desmame e após a imunidade materna perder seu efeito protetor. Os cães são mais acometidos por esses distúrbios do que gatos. 

Dentre os distúrbios da imunodeficiência primária descritos, pode-se citar as deficiências herdadas de neutrófilos, de linfócitos, do sistema complemento e defeitos na produção de imunoglobulinas (IgA, IgM, IgG).

Distúrbios em neutrófilos: São vários os defeitos que podem ocorrer em neutrófilos. Defeitos na segmentação são marcados na anomalia de Pelger-Huët, descrita em raças como Fox Hound, Basenji, Cocker Spaniel, Boston Terrier, CoonHound, Pastor Australiano e em gatos domésticos de pêlo curto; defeitos na adesão podem ocorrer e foram descritos em Setter Irlandês vermelho e branco; a síndrome de Chediak-Higashi, que ocorre em gatos e é caracterizada por grandes grânulos em neutrófilos, redução da produção dessas células e deficiência na sua migração para áreas afetadas. A síndrome de Chediak-Higashi é descrita em gatos Persa azul fumaça. 

Outro distúrbio de neutrófilos ocorre na síndrome do Collie cinza, que é caracterizada pela produção reduzida ciclicamente dessa célula, ou seja, há períodos de ṕrodução normal, seguida de ciclos de baixa produção de neutrófilos. Animais com essa síndrome apresentam infecções respiratórias e gastrointestinais recorrentes e geralmente morrem antes dos três anos de vida.

Outro distúrbio de neutrófilos ocorre na síndrome dos neutrófilos presos, observada em Border Collies. Nessa síndrome, os neutrófilos são produzidos na medula óssea, porém estão em quantidade reduzida no sangue periférico.

Há ainda distúrbios de granulação de neutrófilos encontrados em Rottweiler, defeitos na função de neutrófilos diagnosticado em Setter Irlandês, e em Weimaraner observou-se uma disfunção de neutrófilos associada à deficiência de IgG. Em Doberman e Pinscher, houve relato de disfunção de neutrófilos associado às rinites e pneumonia.

Distúrbios em linfócitos: Uma síndrome denominada imunodeficiência combinada e a síndrome da imunodeficiência combinada ligada ao cromossomo X são alterações genéticas que bloqueiam a produção de linfócitos, gerando déficits em linfócitos T e B, além de níveis muito baixos ou ausência de IgA e igG. Essas síndromes foram relatadas em Jack Russell, Cardigan Welsh Corgis e em Basset Hounds e os portadores geralmente morrem antes dos quatro meses de vida. 

Em gatos Birmaneses, foi relatada uma síndrome caracterizada pela ausência de linfócitos T. Os animais nascem sem pelos e sobrevivem até 13 semanas. Em Bull Terriers, foram relatadas anomalias causadas pela produção reduzida de linfócitos T e B associada a níveis baixos de IgA. Os animais acometidos viveram até os sete meses.

Distúrbios em imunoglobulinas (Igs): Distúrbios relacionados à deficiência na produção de imunoglobulinas geralmente estão associadas a mutações em linfócitos B. Essas anomalias podem ser de um tipo de imunoglobulina, tendo sinais mais brandos, ou de todos os grupos de imunoglobulinas, o que geralmente é incompatível com a vida. Deficiências de IgM foram descritas em Doberman, de IgA em Beagles, Shar-pei, West Highland White Terrier, Schnauzer, Cocker Spaniel e Pastor Alemão. Deficiência na produção de IgG foi relatada em Weimaraners

Animais portadores de deficiências primárias ficam mais suscetíveis a infecções e podem apresentar anomalias em diversos órgãos, o que muitas vezes é incompatível com vida. 

Transmissão

-Caráter genético

Manifestações clínicas

Sem sintomatologia

Sinais inespecíficos (isolados ou em conjunto)

-Infecções recorrentes

Distúrbios em neutrófilos:

-Linfonodos reduzidos de volume

-Linfonodos aumentados e volume

-Gengivite

-Dermatites

-Hipopigmentação de olhos e pêlo 

-Fotofobia

-Catarata

-Nistagmo prolongado após exame de rotação

-Perda de tapetum lucidum

-Neutropenia cíclica e profunda

-Hipoplasia de medula óssea

-Diluição da pigmentação da pele

-Infecções respiratórias

-Infecções gastrointestinais

-Cicatrização retardada

-Crescimento atrofiado

-Tendências a hemorragias

-Febre

-Claudicação (artrites)

-Infecções piogênicas

-Onfaloflebite

-Osteomielite

-Rinite crônica

Distúrbios em linfócitos:

-Linfopenia

-Hipogamaglobulinemia

-Falhas no desenvolvimento

-Linfonodos não palpáveis

-Diarreia

-Vômitos

-Infecções respiratórias

-Piodermite superficial

-Aumento de suscetibilidade a infecções bacterianas e virais

-Redução de folículos pilosos

-Hipoplasia de glândulas sudoríferas

-Hipotricose

-Aplasia tímica

Distúrbios em imunoglobulinas (Igs):

-Maior suscetibilidade a infecções virais e bacterianas

-Piodermites

-Atopia

-Otite

-Demodicose

-Bronquite crônica

-Pneumonia recorrente

-Enterite

-Diarreia

-Alergia alimentar

Diagnóstico

-Hemograma

-Contagem diferencial 

-PCR

-Mielograma

-Dosagem de imunoglobulinas

-Testes genéticos

-Análise de linhagem dos animais

-Testes intradérmicos

-Cultura bacteriana e antibiograma

-Teste da transformação de linfócitos

Observação: A realização e a definição de necessidade de exames complementares são decisões do(a) Médico(a) Veterinário(a). 

Tratamento

Os distúrbios de imunodeficiência primária nem sempre acarretam doenças graves, porém alguns podem levar o animal ao óbito ainda jovem. Alguns desses distúrbios têm sucesso com transplante de medula óssea e o acompanhamento do quadro com visitas periódicas ao médico veterinário é essencial. Mudança e adequação da dieta e a manutenção de ambiente saudável para o animal são estratégias utilizadas.

Prevenção

A avaliação da linhagem da raça ao adquirir cães e gatos com pedigree é muito importante e, se identificados distúrbios de imunidade primária, é recomendável retirar o animal da reprodução. 

Referências Bibliográficas

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Recomendamos levar o seu pet a um médico veterinário para um diagnóstico preciso