Tudo sobre: Hepatite Crônica Ativa

Introdução

O fígado é um órgão capaz de metabolizar diversas substâncias e promover a eliminação de possíveis metabólitos tóxicos para o organismo. Quando este órgão falha, essas substâncias tóxicas se acumulam e causam sinais clínicos diversos, entre eles, sinais neurológicos. Órgãos relacionados com o fígado também podem ser os responsáveis por essa falha na desintoxicação, como a vesícula biliar. Alterações congênitas dos vasos sanguíneos do fígado (ex.: shunt portossistêmico) também podem alterar o processo de desintoxicação natural e gerar problemas. 

À medida que a falha no funcionamento avança, mais células hepáticas são destruídas e esse problema pode se tornar crônico, progredindo lentamente. Mas doenças crônicas eventualmente se tornam ativas, ou seja, até certo ponto o animal compensa o problema, mas quando a hepatite se torna ativa, os sinais clínicos se manifestam e diversos problemas secundários aparecem. Isso ocorre porque o fígado precisa perder cerca de 75% de sua capacidade para que o organismo manifeste a alteração, por isso, muitas vezes as doenças hepáticas são diagnosticadas na fase crônica e avançada, diminuindo as chances de melhora do paciente.

As principais causas de hepatite crônica são: nutrição inadequada, doenças infecciosas (principalmente causadas por vírus e bactérias), tumores, doenças autoimunes, alterações genéticas, intoxicação prolongada por cobre, utilização indiscriminada ou prolongada de medicações como anti-inflamatórios, intoxicação aguda que evoluiu para cronicidade e patologias que envolvem os sistemas endócrinos (problemas hormonais) e digestivos. Existe ainda peculiaridades em determinadas raças e/ ou espécies, como a lipidose hepática felina e a hepatopatia do Cocker Spaniel

A hepatite crônica se torna ativa quando o fígado chegou no seu limite de “destruição” e é nesse momento que o animal apresenta os sinais clássicos das hepatopatias. Como os sinais são semelhantes ao de uma afecção aguda, cabe ao profissional o diagnóstico correto da alteração. Na hepatite crônica, o parênquima do órgão é alterado e a maior parte dele é composta por fibrose.

Vale ressaltar que algumas formas de doenças hepáticas são bem características em determinadas raças, como as hepatopatias do Cocker Spaniel.

Transmissão

-Não se aplica

Manifestações clínicas

- Anorexia

- Letargia

- Êmese

- Icterícia

- Depressão

- Desidratação

- Ascite

- Emagrecimento

- Diarreia

- Fezes acólicas (sem cor, pálidas, esbranquiçadas)

- Hipotensão

- Sialorreia

- Poliúria

- Polidipsia

- Fraqueza

- Mucosas pálidas

Sinais neurológicos quando há evolução para encefalopatia hepática:

- Convulsão

- Tremores

- Alteração comportamental 

- Coma

Diagnóstico

- Exame clínico associado ao histórico do paciente

- Hemograma completo

- Fosfatase alcalina (FA)

- Albumina

- AST-TGO

- ALT-TGP

- Ácido lático (lactato)

- Bilirrubinas (direta, indireta e total)

- Proteínas totais e frações

- Colesterol total e fracionado

- Albumina

- Coagulograma

- Adenovírus Tipo 1 – Hepatite Canina (PCR)

- Cultura com Antibiograma Combinado (Anaeróbios + Aeróbios)

- Ureia

- Creatinina

- Gama GT

- Glicemia

- Potássio

- Citologia – punção aspirativa por agulha fina ( PAAF)

- Histopatológico com coloração de rotina

- Ultrassonografia abdominal

Observação: A realização e a definição da necessidade de exames complementares são decisões do(a) Médico(a) Veterinário(a).

Tratamento

É preciso observar se há a presença de um fator desencadeador e, no caso de doenças primárias acometendo indiretamente o fígado, o tratamento dessas enfermidades é fundamental para o controle da hepatite. As doenças infecciosas devem ser tratadas de acordo com o microrganismo causador, sempre com acompanhamento profissional e cuidados essenciais para evitar a disseminação dos casos contagiosos. Como grande parte das medicações utilizadas nos mais diversos tratamentos são metabolizadas justamente pelo fígado, é necessário um cuidado especial com esses pacientes.

A terapia suporte baseia-se nos sintomas apresentados: hidratação intravenosa e reposição de eletrólitos com fluidoterapia específica, suplementação vitamínica, controle de vômitos, uso de aminoácidos que protegem o fígado e estimulam um metabolismo adequado, e controle do vômito. Muitas vezes, quando a hepatite crônica se torna ativa, o ideal é manter o pet hospitalizado até que ocorra estabilização do paciente.

Os casos mais graves - que geram até mesmo sinais neurológicos - podem demandar um tratamento mais intensivo. Sinais neurológicos como convulsões devem ser tratados de acordo. Além disso, é preciso “limpar” o organismo de substâncias tóxicas que não foram metabolizadas pelo fígado, utilizando medicações específicas como diuréticos e anti-tóxicos.

Uma avaliação criteriosa deve ser feita por um(a) profissional capacitado(a) para que os demais sistemas afetados recebam tratamento adequado paralelamente. Cães e gatos portadores de hepatites crônicas possuem uma sobrevida menor e o prognóstico, ou seja, chance de recuperação completa, é ruim, o que pode diminuir drasticamente a qualidade de vida. 

Poucos estudos apontam resultados realmente importantes no uso de terapias alternativas, mas existem diversas evidências de que terapias, como a acupuntura e a ozonioterapia, prolongam a expectativa de vida e oferecem mais conforto para o portador da doença. 

Quando a hepatopatia crônica é decorrente de um tumor, na maioria dos casos a remoção cirúrgica é contraindicada, uma vez que o procedimento oferece mais riscos e os benefícios são mínimos.

Prevenção

É necessário evitar o uso indiscriminado de quaisquer medicações e sempre realizar avaliações com profissional capacitado(a) quando o paciente faz uso de medicamentos a longo prazo. 

Como fatores nutricionais estão envolvidos na deficiência do metabolismo hepático, é necessário seguir uma dieta adequada para cada tipo de animal, sempre com orientação de um(a) médico(a) veterinário(a) e respeitando as peculiaridades de cada indivíduo. O controle de peso para prevenir a obesidade também é um fator importante na prevenção de hepatopatias

Um protocolo vacinal completo previne diversos tipos de infecções que podem gerar o quadro descrito, sendo um excelente meio de prevenção para leishmaniose visceral canina (vacina específica), leptospirose e adenovírus (vacina múltipla - V8, V10, V11).

Como há tendência natural de perda da função hepática à medida que os animais envelhecem, o ideal é manter um acompanhamento criterioso com um(a) médico(a) veterinário(a) para atender os pacientes geriatras, embora determinadas doenças ocorram em qualquer fase da vida dos cães e gatos.

Referências Bibliográficas

OLIVEIRA, J.R. e MATTIOLLI, M.M. Principais complicações em cães com insuficiência hepática grave – revisão de literatura. Pubvet. v.4, n.37, ed.142, art. 960, 2010.

RICHTER, K.P.. Doenças do fígado e do sistema hepatobiliar, In: TAMS, T.R. Gastroenterologia de pequenos animais. 1ed. 2005. Roca: São Paulo, pp. 283-348.

TILLEY, L. P. E SMITH, JR., F. W. K. Insuficiência Hepática em Cães. In: Consulta Veterinária em 5 Minutos Espécies Canina e Felina. 2ª Ed. 2003. São Paulo: Manole, cap.12.

WATSON, P. J. Chronic Hepatitis in Dogs: a Review of Current Understanding of Aetiology, Progression, and Treatment. The Veterinary Journal. v.167, n.3, p.228-241, 2004.

Recomendamos levar o seu pet a um médico veterinário para um diagnóstico preciso