Tudo sobre: Meningite/Meningoencefalite/Meningomielite

Introdução

As meninges são membranas que recobrem todo o sistema nervoso central (SNC), desde o encéfalo até o final da medula espinhal. São camadas protetoras de estruturas nobres como o encéfalo (o cérebro), o cerebelo e medula de cães e gatos, sendo elas a dura máter (mais externa), aracnóide e pia máter (mais interna, com maior contato com os órgãos do SNC). A inflamação das meninges é chamada de meningite, esse processo inflamatório pode ser difuso (ao longo de toda sua extensão) ou localizado. Quando os processos são focais e a inflamação acabam chegando ao órgão que está sendo recoberto pelas meninges, recebem nomes específicos: se for na região do encéfalo será uma meningoencefalite, se for na região da medula espinhal chamamos de meningomielite. O quadro geral e os sinais dependem da área acometida, mas normalmente trata-se de uma doença grave, de início rápido e que pode ser de difícil tratamento. 

Na medicina humana, mais avançada que a medicina veterinária, as meningites são doenças muito graves que geram alto número de óbitos, principalmente em crianças, porém a inflamação em específico não pode ser transmitida de animais para pessoas, uma vez que a inflamação é uma reação do organismo a diversos estímulos, porém o agente causador da inflamação nas meninges pode sim ser transmitido. 

As meningites podem ter diversas origens: infecciosas (doenças bacterianas, fúngicas virais, parasitárias), autoimunes (quando células de defesa atacam o próprio organismo), por intoxicação (externa devido a fármacos e venenos ou interna por toxemia como na encefalopatia hepática) ou ainda origem iatrogênica (quando um procedimento médico leva ao problema). Em cães, as principais causas são a cinomose, a toxoplasmose e a erliquiose (doença do carrapato). Nos gatos, há maior prevalência de meningite em animais positivos para o vírus da leucemia felina (FeLV) e peritonite infecciosa felina (PIF). A raiva, uma doença com 100% de letalidade e zoonose de grande importância em saúde pública, também é uma doença que acomete cães e gatos causando meningoencefalite. Na maioria das vezes, a inflamação das meninges acontece de forma secundária, ou seja, como consequência de uma doença sistêmica inicial.

As chamadas meningoencefalites não infecciosas também são muito comuns na rotina da neurologia veterinária, mas também são secundárias a outras doenças, como por exemplo leucoencefalite necrosante, meningoencefalite necrosante e a meningoencefalite granulomatosa. 

Transmissão

-Varia de acordo com a causa inicial. Pode não ser transmissível.

Manifestações clínicas

Variam de acordo com a localização da inflamação, podendo haver um conjunto de sinais que remetem a uma determinada região do sistema nervoso central ou diversas regiões.

- Convulsão

- Head pressing

- Head tilt

- Alterações de comportamento 

- Agressividade

- Apatia

- Dor

- Anorexia

- Anisocoria

- Ataxia

- Desmaio

- Disfagia

- Coma

- Dispneia

- Emagrecimento

- Escara de decúbito

- Excitação

- Gemidos

- Hiperalgia

- Hiperestesia

- Hipometria

- Inclinação de cabeça

- Vocalização anormal 

- Exoftalmia

- Nistagmo

- Opistótono

- Paralisia

- Paresia

- Ptose auricular

- Ptose labial

- Ptose palpebral

- Espasmos ou tremores musculares

- Hipo ou hiperreflexia

- Pirexia

- Rigidez/ espasmo muscular

- Depressão

- Cegueira

- Êmese

Diagnóstico

- Exame neurológico criterioso associado ao histórico do paciente, principalmente com o objetivo de elucidar a causa inicial

- Análise de líquor

- Tomografia computadorizada

- Ressonância magnética

- Cultura com antibiograma combinado (Anaeróbios + Aeróbios)

- Hemograma

- Testes específicos para doenças infecciosas (cinomose, erliquiose, babesiose, toxoplasmose)

- Cultura para fungos com Antifungigrama

- Necrópsia (Post mortem)

Observação: A realização e a definição da necessidade de exames complementares são decisões do(a) Médico(a) Veterinário(a).

Tratamento

Por se tratar de um processo inflamatório, independentemente da causa base, o uso de antiinflamatórios específicos com boa absorção pelas meninges é essencial. A escolha do fármaco depende de uma avaliação de um profissional capacitado, preferencialmente um médico veterinário especializado em neurologia. A pressão intracraniana, ou seja, a pressão que o líquor (líquido produzido nas meninges e que circula através delas e dos ventrículos no Sistema Nervoso Central) faz no crânio pode estar aumentada e diuréticos específicos devem ser usados para minimizar os efeitos deletérios dessa consequência. 

Analgésicos são fundamentais, pois a literatura comprova que as meningites em geral são dolorosas em cães e gatos. A escolha também depende da avaliação profissional, pois os efeitos colaterais de analgésicos potentes podem piorar o quadro. O tratamento é basicamente sintomático, ou seja, é preciso tratar todos os sinais que aparecem no decorrer da doença: controle de convulsões, cuidados de enfermagem, antitérmicos para a febre, tranquilização em casos de excitação e agressividade incontroláveis, hidratação pela via endovenosa, suporte nutricional via sonda, dentre outros procedimentos que demandam hospitalização do paciente.

O tratamento definitivo só será alcançado quando se curar o problema inicial. Por isso, muitas vezes as meningites são sintomas de outras afecções que precisam ser diagnosticadas e tratadas: tumores, doenças virais como cinomose e FELV, doenças bacterianas como a erliquiose, parasitárias como toxoplasmose e babesiose, entre outras. Quanto mais cedo é feito o diagnóstico definitivo, melhores são as chances de o tratamento ser eficaz, porém a doença pode deixar sequelas. As chances de sucesso no tratamento também dependem da causa principal, a cinomose nos cães e a leucemia felina são doenças que sabidamente possuem elevada taxa de óbito. 

O uso de antibióticos deve ser criterioso para não causar resistência, mas é quase sempre indicado. Existem medicamentos específicos que chegam em maior concentração no SNC e são preferencialmente usados, mas é sempre importante realizar cultura e antibiograma para um tratamento mais específico. Como os exames levam tempo para ficarem prontos, os profissionais podem optar por antibióticos que considerem os melhores para aquele caso. 

O tratamento das meningites de causas não infecciosas são ainda mais difíceis, sendo um verdadeiro desafio dentro da neurologia veterinária, bem como o diagnóstico dessas doenças também permanece tardio, o que piora as chances de sucesso. 

Prevenção

A prevenção de qualquer doença que afete o SNC de maneira secundária passa por um controle sanitário adequado: vacinação, alimentação de qualidade, manutenção dos animais em regime domiciliar com passeios guiados e visitas frequentes ao médico veterinário de confiança para check-ups. 

Como profissionais, é imprescindível assepsia cirúrgica em qualquer procedimento que envolva as meninges, como punção para coleta de líquor e aplicações pela via epidural. Para cirurgias, esses critérios devem ser ainda mais rígidos, seguindo todos os protocolos que previnam a contaminação iatrogênica do local.

Referências Bibliográficas

COSTA, R. C. Meningoencefalites não-infecciosas. Disponível em http://neuronaldo.com.br/wp-content/uploads/2013/07/Meningoencefalites_nao_infecciosas.pdf. Acesso em 19 de junho de 2020. 

FENNER, W. R. Doenças do cérebro. In: ETTINGER, S. J.; FELDMAN, E. C. Tratado de medicina interna veterinária: doenças do cão e do gato. 2004. 4ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. p.586-638.

TAYLOR, S. M. Encefalite, mielite e meningite. In: NELSON, R. W. e COUTO, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 2010. 4 ed., Rio de Janeiro: Elsevier.p.1056-1066.

ZACHARY, J. F. Nervous system. In: ZACHARY, J. F. e MCGAVIN, M. D. Pathologic Basis of Veterinary Disease. 2012. 5ed. St Louis, Missouri:Elsevier/Mosby, p.846-847.

Recomendamos levar o seu pet a um médico veterinário para um diagnóstico preciso