Tudo sobre: Peritonite

Introdução

O peritônio é uma túnica serosa, delgada, úmida e transparente, podendo ser dividido em três componentes regionais. O peritônio parietal reveste a parede da cavidade abdominal, pélvica e escrotal. A cobertura dos órgãos é denominada peritônio visceral. As partes parietal e visceral estão ligadas pelas túnicas serosas intermédias, denominadas pelos órgãos aos quais estão inseridos, referidos como mesentério, omento e ligamentos.

As finalidades do peritônio são proteção e absorção. O peritônio protege a cavidade peritoneal ao isolar áreas inflamadas, quando existentes, e permite a absorção, exsudação ou transudação de líquidos. Comumente a cavidade abdominal contém pouco líquido livre (menos de 1 ml/Kg), que consiste em um transudato puro (líquido com baixa concentração de proteína e células) e contém solutos na mesma concentração que no soro. A presença de líquido livre acima do citado é considerada patológica.

A peritonite consiste em inflamação do peritônio, com classificação variável em relação à origem (primária ou secundária), ao grau de contaminação (asséptica, séptica ou mista) e à extensão, segundo a qual pode ser localizada (limitada a uma área anatômica específica) ou difusa (comprometendo de forma generalizada a membrana peritoneal).

Na peritonite primária, que representa menos de 1% dos casos, microorganismos migram para a cavidade abdominal por via hematógena (sangue) ou linfática (sistema linfático). Pode haver, também, contaminação retrógrada através da bolsa ovariana (por contaminação ascendente a partir de útero com infecção), desde a cavidade torácica (pelo arco lombocostal) e por migração transmural (passagem através da parede) de bactérias intestinais endógenas em casos de isquemia (redução do fluxo sanguíneo) ou de choque sistêmico. 

A peritonite secundária decorre de ferida penetrante na cavidade abdominal, podendo ainda estar associada a procedimentos cirúrgicos, traumatismos (ruptura no trato urinário - uroperitônio) ou enfermidades da cavidade abdominal, como ruptura do útero com piometra (infecção uterina), abscessos (hepático e prostático), perfuração de víscera oca por corpo estranho que migra a partir de seu lume, ou por projétil de arma de fogo, dentre outras. O paciente com peritonite secundária sempre requer intervenção cirúrgica na cavidade abdominal, pois ocorre alta taxa de mortalidade se não for tratada adequadamente, podendo evoluir com formação de abscessos, sepse e insuficiência múltipla de órgãos. 

A peritonite asséptica (sem contaminação) pode ser química ou mecânica. Irritantes químicos como bile, secreção gástrica e pancreática, urina ou contraste a base de bário, usado em radiologia, extravasados na serosa abdominal determinam peritonite química. A presença de drenos ou cateteres, talco de luvas, fio de sutura, fios de gaze ou compressa causam peritonite mecânica. A peritonite mista decorre da evolução de uma peritonite mecânica ou química complicada pela presença de bactérias por contaminação ascendente (drenos ou ruptura de trato urinário, por exemplo) ou por migração transmural, especialmente a partir do trato gastrintestinal.

Cães e gatos de qualquer idade, gênero ou raça podem desenvolver peritonite. É particularmente comum em animais jovens que têm corpos estranhos perfurantes e naqueles que sofreram injúrias abdominais.

Transmissão

-Não se aplica

Manifestações clínicas

A peritonite é considerada uma emergência cirúrgica, mas os sinais clínicos são inespecíficos e, consequentemente, difícil de diagnosticar

- Inapetência

- Depressão

- Desidratação

- Pirexia

- Êmese

- Dor abdominal intensa

- Relutância em se mover

- Taquicardia

- Taquipneia

- Icterícia

- Mucosas pálidas, cianóticas ou congestas

- Edema pulmonar

- Distenção Abdominal

- Diarreia

Diagnóstico

- Ultrassonografia abdominal

- Radiografia abdominal

- Análise do líquido abdominal (cultura e antibiograma)

- Lavagem peritoneal diagnóstica

- Hemograma completo

- Bioquímico sérico

- Hemogasometria 

Observação: A realização e a definição de necessidade de exames complementares são decisões do(a) Médico(a) Veterinário(a).

Tratamento

 A abordagem apropriada ao paciente com peritonite é baseada em primeiro lugar no tratamento médico do choque e da sepse. Posteriormente, deve-se localizar e interromper a fonte de contaminação para, então, realizar a drenagem peritoneal quando necessária, seguida pela instituição de suporte nutricional e cuidados pós-operatórios. 

O controle adequado do foco infeccioso é o principal fator que influencia na redução da mortalidade em pacientes portadores de infecção intra-abdominal. Os animais com peritonite podem ser classificados em três categorias. Os animais não cirúrgicos não requerem cirurgia de emergência e são abordados clinicamente a princípio. Os urgentes são pacientes que devem ser operados o mais rápido possível, no máximo em 12 horas. E os animais críticos, nos quais a cirurgia deve ser realizada imediatamente após a estabilização. O atraso na cirurgia aumenta o risco de morte do paciente. 

A abordagem clínica dos animais com peritonite consiste na estabilização do paciente, restaurando a equilíbrio hídroeletrolítico, no uso de antimicrobianos, no controle da dor e na administração de anti-inflamatórios. 

A alimentação deve ser suspensa se o animal apresentar êmese (vômito). A terapia de reposição intravenosa de fluidos deve ser iniciada o mais rápido possível, particularmente se o animal estiver desidratado ou aparentar choque, sendo essencial para restaurar a perfusão e a hidratação.

Os objetivos do tratamento cirúrgico é identificar e corrigir as causas da contaminação, remover corpos estranhos e tecidos necróticos, reduzir a carga bacteriana intraperitoneal, prevenir infecções recorrentes e promover a drenagem da cavidade. A laparotomia exploratória completa precisa ser realizada a fim de identificar a causa inicial, quando esta ainda não foi identificada. A correção cirúrgica das alterações é realizada conforme necessário e após este procedimento faz-se a lavagem peritoneal.

Cada indivíduo responde de forma diferenciada ao tratamento e isto deve ser considerado em todas as etapas de atendimento em casos de peritonite.

Prevenção

-Não se aplica

Referências Bibliográficas

D’AVILA, G.F.L. Monografia apresentada à Faculdade de Veterinária como requisito parcial para obtenção da Graduação em Medicina Veterinária. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012.

FOSSUM, T. W. Cirurgia de pequenos animais. 4° edição, p.373-382, 2014.

ZIMMERMANN, M. Peritonite em cães. Cienc. Rural vol.36 no.5 Santa Maria Sept./Oct. 2006

Recomendamos levar o seu pet a um médico veterinário para um diagnóstico preciso