Tudo sobre: Toxoplasmose

Introdução

Afecção gerada por um protozoário intracelular obrigatório denominado Toxoplasma gondii, o qual possui como hospedeiro final (definitivo) os felinos, especialmente os domésticos, e há relatos de diversos outros animais, incluindo cães e ser humano, como hospedeiros intermediários sendo, portanto, uma doença zoonótica de grande importância na saúde pública. As infecções ocorrem mais comumente em regiões quentes e úmidas com baixas altitudes.

O protozoário se apresenta de três formas distintas e potencialmente importantes ao se pensar nos meios de contaminação, são elas: 

  • Oocistos - estruturas eliminadas nas fezes dos hospedeiros definitivos que não possuem capacidade infectante de imediato, mas em condições ideais de luminosidade e temperatura podem gerar um processo denominado esporulação e se tornar infectantes;
  • Bradizoítos - representam a multiplicação lenta e ficam “ocultos” na forma de cistos teciduais nas musculaturas e órgãos, não sendo reconhecidos pelo sistema imune do hospedeiros;
  • Taquizoítos - alta capacidade de multiplicação causando as lesões teciduais e o desenvolvimento dos sinais clínicos.

O desenvolvimento dos sinais clínicos varia de acordo com a capacidade imunológica do animal e os órgãos de eleição são especialmente o cérebro, fígado, musculatura estriada, pâncreas e pulmões. Afeta principalmente animais jovens que têm o sistema imune imaturo ou animais idosos imunocomprometidos.

Os hospedeiros definitivos (gatos) podem adquirir o T. gondii mais comumente de forma direta, por meio da ingestão de vetores mecânicos tais como baratas e moscas, ingestão de água contaminada ou alimentos contaminados mal cozidos/ crus, especialmente carne.

Os hospedeiros intermediários adquirem a toxoplasmose pela falta de higiene pessoal e/ ou alimentar, de forma majoritariamente indireta. Ou seja, através de consumo de alimentos contaminados crus ou mal cozidos, manipulação de alimentos ou mucosas com mãos contaminadas, ingestão de água contaminada e, mais raramente, em casos onde há intensa contaminação pode ocorrer de forma inalatória.

Ambos podem ser contaminados por intermédio da transfusão sanguínea, sendo mais rara, via transplacentária e por meio de transplantes de órgãos. A via lactogênica é relatada na literatura em felinos e caprinos.

Vale ressaltar que o protozoário não possui a capacidade de se aderir ao pelo do animal, portanto, o ato de acariciar felinos não é considerada uma forma de transmissão.

Transmissão

- Água contaminada

- Alimentos contaminados

- Predação de pequenos roedores e aves (felinos)

- Transplacentária - transmissão congênita (humanos e animais)

- Transfusão sanguínea

- Lactogênica (felinos)

Manifestações clínicas

Assintomáticos

Sinais inespecíficos:

- Apatia

- Emagrecimento

- Pirexia

- Letargia

- Icterícia

- Efusões

Manifestações clínicas relacionadas ao sistema músculos esqueléticos: 

- Fraqueza muscular

- Mialgia

- Artrite

- Artralgia

- Deformidade angular

- Claudicação

- Contrações musculares

- Miosite

Manifestações clínicas relacionadas ao trato gastrointestinal: 

- Êmese

- Diarreia

- Dores abdominais

Manifestações clínicas relacionadas ao sistema respiratório: 

- Secreção oculonasal

- Rinite, 

- Tosse

- Taquipneia

- Dispneia

Manifestações clínicas oftálmicas: 

- Uveíte anterior

- Luxação do cristalino

- Glaucoma

- Deslocamento de retina

- Cegueira

- Hifema

- Retinocoroidite

- Hemorragia retiniana

- Neurite Óptica

- Anisocoria

Manifestações e sinais clínicos relacionados ao sistema nervoso:

- Ataxia

- Andar em círculos 

- Alterações de comportamento

- Hiperestesia

- Paresia ou paralisia 

- Déficit de nervos cranianos

- Convulsão

- Encefalites, 

- Tetraplegia

Manifestações clínicas relacionadas ao sistema reprodutor: 

- Abortamento 

- Microcefalia

- Mortalidade neonatal

- Natimortalidade

Em seres humanos, as manifestações mais comuns são: uveíte, cegueira, microftalmia, microcefalia, anencefalia, estrabismo, hidrocefalia, epilepsia, déficit de aprendizagem, hiperatividade, esquizofrenia e abortos.

Diagnóstico

Associação entre histórico clínico, exames físico e complementares. Exames que o(a) médico(a) veterinário(a) pode solicitar:

- Hemograma completo

- Radiografia torácica

- Ultrassonografia abdominal

- Sorologia seriada de IgG

- Sorologia de IgM

- Bioquímico - albumina, ALT, AST, FA, bilirrubina e globulina

- Urinálise - proteína e bilirrubina

- Coproparasitológico - possui baixa sensibilidade e difícil diferenciação do parasita

- PCR (amostras de tecido, humor aquoso, secreções respiratórias, líquidos cavitários, sangue e raramente nas fezes)

- Citologia (líquido cavitário, lavados traqueais ou broncoalveolares)

Observação: A realização e a definição de necessidade de exames complementares são decisões do(a) Médico(a) Veterinário(a).

Tratamento

O tratamento tem como objetivo obter a cura clínica e impedir a eliminação dos oocistos, tendo prognóstico reservado de acordo com o nível de comprometimento do animal e imunossupressão.

Fundamenta-se no fornecimento de antibioticoterapia por no mínimo quatro semanas. Faz-se ainda necessário o tratamento sintomatológico com uso de fluidoterapia, antieméticos, manejo nutricional, manejo oftálmico de acordo com as manifestações apresentadas (a mais comum é a uveíte sendo recomendado o tratamento tópico com colírios a base de corticoides), anticonvulsivantes, suplementação quando houver anemia, fisioterapia e por vezes o uso de acupunturas também pode compor o protocolo terapêutico dos(as) médicos(as) veterinários(as).

A doença pode progredir para óbito do(a) paciente em casos não responsivos ao tratamento.

Prevenção

Nos hospedeiros definitivos, as recomendações visam a limpeza diária das fezes na caixa de areia, sempre com o auxílio de luvas e lavagem das mãos minuciosa logo após o procedimento e desinfecção das caixas de areia duas vezes por semana com água fervente e desinfetantes apropriados. Testar os animais e, quando negativos, efetuar as vacinas e mantê-los totalmente domiciliados, evitando contato com animais de origem desconhecida e desestimulando o hábito de predadorismo (evitando a ingestão de vetores mecânicos e aquisição de doenças imunossupressoras). Oferecer somente alimentos industrializados de qualidade e bem balanceados ou carnes bem cozidas. Fornecer água fervida ou filtrada e realizar a troca diariamente, bem como higienização do recipiente. Manter animais recém adquiridos ou com sinais gastrointestinais em quarentena durante o tratamento.

Outras recomendações dizem respeito à prevenção da Toxoplasmose em seres humanos e correspondem à higiene alimentar e pessoal, uso de equipamentos de proteção (luvas) ao manipular alimentos ou solos, ingestão somente de alimentos adequadamente cozidos ou congelados, eliminação de vetores mecânicos, evitar a utilização de caixas de areia pelas crianças em playgrounds.

É importante ressaltar que a contaminação da água pode ocorrer por meio de fezes contaminadas eliminadas por felinos em reservatórios e somente sistemas de tratamento completos são capazes de destruir o parasita. Portanto, são essenciais investimentos em saneamento básico para fornecimento de água de consumo de qualidade e em quantidade suficiente para a população.

Referências Bibliográficas

SOUSA, Marlos Gonçalves. Doenças Infecciosas: Toxoplasmose. In: CRIVELLENTI, Leandro Z.; CRIVELLENTI, Sofia Borin. Casos de Rotina em Medicina veterinária de pequenos animais. 2. ed. São Paulo: MedVet, 2015. cap. 4, p. 178 - 179.

ARIAS, Mônica Vicky Bahr. Neurologia: Toxoplasmose. In: CRIVELLENTI, Leandro Z.; CRIVELLENTI, Sofia Borin. Casos de Rotina em Medicina veterinária de pequenos animais. 2. ed. São Paulo: MedVet, 2015. cap. 13, p. 538 - 539.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Toxoplasmose: sintomas, tratamento e como prevenir. In: MINISTÉRIO DA SAÚDE. Saúde de A a Z. [S. l.], 20 nov. 2012. Disponível em: https://saude.gov.br/saude-de-a-z/toxoplasmose. Acesso em: 29 abr. 2020.

DEL BARRIO, Maria Alessandra Martins. Doenças Infectocontagiosas: Toxoplasmose. In: MAZZOTTI, Giovana Adorni; ROZA, Marcello Rodrigues. Medicina Felina Essencial: Guia prático. 1. ed. Curitiba: Equalis, 2016. p. 711 - 721.

ÁVILA, Vanessa Perlin Ferraro. Toxoplasmose Felina: Revisão de Literatura. 2009. 27 p. Trabalho de Conclusão de Curso (Pós graduação em clínica médica de pequenos animais) - Universidade Federal Rural do Semi-árido, Porto Alegre, 2009.

Recomendamos levar o seu pet a um médico veterinário para um diagnóstico preciso