Como vive um cão-guia?
“Como vive um cão-guia?” Se você, assim como eu, é apaixonada por cães, deve ter se perguntado isso alguma vez na vida ou até mesmo buscado respostas na enciclopédia da era digital, o Google. A essa altura, já deve ter lido que se trata de um cão de trabalho, extremamente dócil, com entrada e permanência legalizadas em locais públicos e privados, treinado exclusivamente para proporcionar melhor mobilidade a uma pessoa com deficiência visual – cega ou com baixa visão. Mas, em meio à sua dúvida, você já se perguntou ou pesquisou “Como vive um deficiente visual”?
Enxergando o mundo com 10% da visão há pouco mais de 37 anos, posso lhe garantir que não encontrará respostas exatas. Nem para a primeira nem para a segunda pergunta.
Um deficiente visual pode ter nascido cego ou ter perdido a visão na infância, na adolescência ou na vida adulta, por uma grave doença, problemas genéticos e até mesmo um acidente. Pode ter sido criado por uma família que incentivou a sua independência ou por uma superprotetora. Pode cruzar uma cidade inteira sozinho ou ficar inseguro até mesmo para caminhar pela calçada.
Pode ter amigos que o chamam para o parque, praia e balada ou pode sequer ter companhia para tomar um ar. Pode ter dificuldade para lavar a louça, mas ganhar medalhas em esportes de alto rendimento e prêmios de fotografia, música e poesia. Pode gostar de MPB, reggae ou Rock and Roll e pode simplesmente preferir o silêncio. Pode ter várias preferências e habilidades, como eu ou como você.
Um cão pode ter nascido de uma ninhada com dois, cinco ou doze filhotes, vai saber. Pode ter vindo de bons criadores, canis fundo de quintal ou de realidades que nunca saberemos. Pode ser dócil e, ainda assim, tímido com estranhos. Pode ser focado, mas curioso, brincalhão, atrevido. Pode amar passear de carro ou enjoar a cada trajeto. Pode caminhar tranquilamente pelas ruas ou sequer cogitar estar em meio a carros, barulhos e pessoas.
Pode ser apaixonado por frisbee, bolinhas e pelúcias ou preferir o bom e velho graveto do parque. Aliás, pode até mesmo preferir praia a parque ou nunca pisar em qualquer um dos dois. Pode odiar uns legumes, mas nunca carne. Pode gostar de todos os brinquedos ao mesmo tempo ou pode ver, no trabalho, a sua maior e melhor brincadeira. Pode ter várias preferências e habilidades, assim como o seu cão ou a Zoé, o meu cão-guia.
Para seres humanos ou cães, são muitas as formas de viver, todas elas únicas e incomparáveis, incapazes de serem moldadas a um único treinamento ou “diagnosticadas” numa pesquisa rápida de internet.
Mas eu sei que você chegou até aqui para sanar uma curiosidade comum a muita gente, então o que posso dizer é que, uma vez inseparáveis, cão-guia e deficiente visual vivem através do mundo das oportunidades que lhes são oferecidas. Assim, ofereço a Zoé tudo aquilo que me fez enxergar além: confiança, respeito à individualidade e amor.
Destemida, alegre, focada, brincalhona e carinhosa. Nasceu um cão, mas tem alma de peixe que nunca está no raso. Topa trilhas e desvia de todos os obstáculos rasteiros e aéreos possíveis, desde que não sejam bolas de vôlei, futebol, tênis ou salão… É apaixonada por água de coco, banana e iogurte. Ama jogar frisbee e brincar de esconde esconde pelo apartamento, comigo e com o seu amigo inseparável, o Kong Wubba.
Tenho plena consciência de que Zoé nunca vai me dar os 90% de uma visão que não tenho nem nunca conheci, mas ela me mostra como é caminhar por lugares onde jamais imaginei estar. Juntas, felizes e realizadas.
É assim que nós vivemos.


