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É preciso toda uma aldeia para se educar um cão-guia

É muito comum ouvirmos o provérbio africano de que “é preciso toda uma aldeia para se educar uma criança”, referindo-se à necessidade do coletivo para a garantia e a construção dos seus direitos, relações e bem-estar. 

O raciocínio não deveria ser muito diferente para com os cães, uma vez que eles também são seres sociais e, em muitos casos, desempenham funções de assistência justamente pelo não comprometimento de uma aldeia para com seus membros. Sim, é preciso toda uma aldeia para se educar um cão. E uma aldeia mais unida e atenta para se educar um cão-guia.

Não, eu não acho que o cão-guia seja o mais especial dentre todos os cães de assistência – embora a minha cadela seja a mais especial para mim, claro -, mas é fácil compreender que ele é o mais vulnerável, uma vez que lhe é garantido legalmente o acesso a permanência em ambientes públicos e privados de uso coletivo. Portanto, para ele saber entrar e permanecer nestes ambientes é preciso toda uma aldeia para ajudá-lo.

cão-guia labrador filhote, sentado

Comecemos pela seleção: um canil que trabalhe com possibilidades estruturadas 

Numa teoria bastante romantizada, o cão-guia nasce para guiar, mas a verdade é que todo cão nasce para ser cão. Com vontade de ser cão, disposto a ser cão. Farejar, cavar, pular numa poça, roer um graveto, correr num campo muito verde e dormir por horas, sempre amparado por um ser humano que lhe dê comida, água, abrigo e atenção. 

Não existem canis especializados em cães-guia (nem mães e pais especializados em fabricar médicos, advogados, engenheiros, sociólogos, modelos ou jogadores de futebol, por exemplo). O que existe são possibilidades estruturadas de melhoramento genético que visam questões comportamentais e de saúde adequadas ao cumprimento da função. E, para isso, é preciso toda uma aldeia.

Socialização: os primeiros passos da convivência multiespécies

Socializar um cão-guia é um trabalho repassado à família socializadora, mas que precisa ser da atenção de todos, a todo instante. Não se trata apenas de apresentar o cão ao maior número de pessoas e de ambientes públicos e privados possível, mas de todos ao redor diminuírem as barreiras atitudinais ao máximo durante esse processo. 

Para isso, o motorista de ônibus ou aplicativo não deveria recusar nem cancelar corridas, o gerente do estabelecimento comercial deveria indicar uma mesa mais confortável para o filhote, o médico-veterinário deveria conduzir a coleta de exames de maneira pouco estressante, todos ao redor deveriam entender que é um cão que nasceu cão, mas que está descobrindo se quer mesmo fazer parte do mundo lá fora, totalmente despreparado para recebê-lo, ainda que lhe seja um direito. É preciso toda uma aldeia.

Treinamento: mudar a rota da vida compensa ou não compensa? Eis a questão. 

O que um cão ganharia trocando o maravilhoso instinto despreocupado de farejar pela condução de uma pessoa com deficiência visual que ele sequer conhece?

O papel do treinador – que pode ser um profissional autônomo ou vinculado a um instituto –  é lhe oferecer bem mais que petiscos deliciosos sabor frango. Ele lhe apresenta comportamentos (comandos) específicos, repetições, reforços e alternativas para que desviar de cada obstáculo pareça tão divertido e motivador quanto cheirar uma grama ou brincar num parque.

E, embora a técnica venha das mãos de um profissional, são necessárias muitas outras mãos dispostas a garantir ao cão a segurança necessária para que ele esteja feliz em mobilidade urbana. É preciso juntar todas as mãos de uma aldeia.

A formação da dupla nunca é só de uma dupla 

Quando se entrega um cão-guia a um deficiente visual – seja ele cego ou com baixa-visão – forma-se uma dupla. Se tudo der certo, uma dupla que seguirá unida por, no mínimo, oito anos.

Aquilo que parece pronto, no entanto, estará só começando, pois duplas nunca são iguais. Cada uma tem seu ritmo, suas batalhas, seus entraves e um percurso muito, muito particular. Para percorrê-lo, é preciso toda uma aldeia.

É preciso quem dissemine informações, quem abra portas, quem acolha e incentive a cada passo e quem seja capaz de retirar os obstáculos intransponíveis antes mesmo que eles sejam percebidos.

É preciso uma aldeia para se educar um cão-guia, garantir seus direitos, relações e bem-estar, além de lembrá-lo a todo instante que ele está num caminho que lhe pertence, pois apesar de ser feliz mudando sua própria rota, um cão sempre se lembrará de que é um cão.

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Sobre o autor

Jéssica Vieira

É jornalista, pós-graduada em Novas Tecnologias e mestre em Letras - com ênfase em Análise do Discurso - pela UFS. Nordestina arretada, taurina convicta, faladeira ao extremo e míope incurável, é a humãe e treinadora da Zoé, a primeira Border Collie cão-guia do Brasil.

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