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O que muda depois de ter um cão?

Por Jéssica Vieira -

Que a vida com cães é muito mais leve, mais divertida, cheia de emoções e trapalhadas, já sabemos. Mas o que muda mesmo depois de ter um cão? 

Não me refiro à responsabilidade do passeio diário, da hora de voltar para casa, do enriquecimento ambiental, dos cuidados com saúde e alimentação, mas ao que nos muda internamente e nos dá uma outra perspectiva de vida. 

Cães são, essencialmente, uma reestruturação de vínculos. Os que eram frágeis evaporam e perdem espaço, ficando e chegando apenas os sólidos. Assim, em três anos, aprendi mais sobre amor, família e amizade do que nos meus 38 anos de vida.

Gostaria muito de dizer que foi um aprendizado fácil, mas não foi. De familiares dizendo “na minha casa, ela não entra”, passando por “nossa, imagine como é fazer comida com cachorro em casa?” a amigos me chamando para sair e deixando claro que “se ela for, eu não vou porque eu quero sair com você e não com ela” ou “se ela for, eu não vou te buscar em casa”.

Não se iludam. Não foi uma, não foram duas nem três nem cinco pessoas. Foram várias! Mesmo todas elas sabendo que se trata de um cão de assistência, não de um pet.

Cães ressaltam sentimentos. De amor, de afeto, de ciúmes, de raiva, de inveja, de bondade, de maldade e de discriminação. Tudo que estava guardado explode. É incrível como eles têm esse poder de nos orientar para a vida.

Não conto isso com tristeza, mas com a alegria – e a sorte – de quem pode descobrir o valor das boas relações. Das relações que se constroem também – e principalmente – pelas diferenças.

Cães também nos reestruturam quanto às coisas  que verdadeiramente importam. Eu jamais trocaria os pelos marrons espalhados pelo chão do apartamento pelo piso impecavelmente limpo de três anos atrás.

Também não gostaria de ter de volta os doze chinelos quebrados, o cabo do aspirador de pó, algumas pelúcias e a quina intacta do meu rack novíssimo que havia chegado alguns meses antes dela… Cães nos mostram que coisas são apenas coisas…

E por falar em coisas… Quem imaginaria que fôssemos dar tanta importância – e até defender! – um simples brinquedo na vida adulta? Uma bolinha, um frisbee, um cabo de guerra ou uma pelúcia?  

Também aprendi muito sobre o perdão e a urgência de matar a saudade assim que ela aparece, pois cães nos ensinam que a vida é agora e que há vida no agora.

E essa é a parte que mais muda depois de ter um cão: tudo que é verdadeiramente importante tem a urgência e o brilho do agora. 

Por Jéssica Vieira

É jornalista, pós-graduada em Novas Tecnologias e mestre em Letras - com ênfase em Análise do Discurso - pela UFS. Nordestina arretada, taurina convicta, faladeira ao extremo e míope incurável, é a humãe e treinadora da Zoé, a primeira Border Collie cão-guia do Brasil.

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