Pesquisa brasileira esclarece dúvidas sobre o temperamento, depressão e ansiedade em cachorros

Se você tivesse que fazer uma apresentação mais aprofundada do seu cachorro, quais adjetivos você escolheria para defini-lo? Ansioso, preguiçoso, cheio de energia, bravo, manso? A tarefa não é uma das mais fáceis e, pensando nesse assunto, pesquisadores do Reino Unido e brasileiros e fizeram um estudo para ajudar a classificar o temperamento dos peludinhos.

Os dados desse curioso estudo acabaram de ser publicados em um artigo na revista Scientific Reports. Para Carine Savalli Redigolo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), primeira autora do artigo, a grande contribuição da pesquisa foi a validação de um questionário de avaliação do temperamento de cães, pois era algo que ainda não existia em língua portuguesa.

Além de pesquisadores da Unifesp, o estudo também contou com a participação de especialistas da USP, PUC de Minas Gerais, PsicoVet (clínica de comportamento animal), Universidade Paulista e da Universidade de Lincoln (no Reino Unido).


Versão brasileira

Para avaliação dos caninos, os pesquisadores brasileiros usaram um questionário com 21 perguntas, desenvolvido pelo professor Daniel Mills, da Universidade de Lincoln (ING), para estudar a sensibilidade de cães (tendência a alta energia/vitalidade versus depressão e tendência a medo/ansiedade versus coragem/calma). A grande diferença, porém, é que os especialistas nacionais não se limitaram a traduzir uma escala desenvolvida em outro país e usá-la, mas se preocuparam em fazer adaptações para a realidade do nosso País.

Um exemplo dessa necessidade é a existência de uma questão, na versão em inglês, sobre o comportamento do cão no jardim. Essa pergunta não se mostrou importante na versão brasileira, provavelmente porque a vida de cães em casas com jardins é menos comum no Brasil do que no Reino Unido.

O questionário com 21 perguntas foi disponibilizado on-line no website do Centro de Pesquisa em Comportamento e Bem-estar Humano (CPBEC), centro sediado no Instituto de Psicologia (IP) da USP que conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Natura Cosméticos e envolve pesquisadores da USP, Unifesp e Mackenzie.

A pesquisa ficou disponível de novembro de 2017 a abril de 2018. Os tutores foram convidados, por meio de várias fontes, como redes sociais e anúncios, a responderam as questões. Entre elas: “Seu cão fica bastante excitado quando está prestes a sair para passear? (ex. quando vê sua guia, ou quando escuta “passear etc.)”; “Seu cão fica assustado com barulhos de televisão ou rádio?”; e “Seu cão parece ter medo do aspirador de pó ou qualquer outro aparelho doméstico?”.

Os tutores precisavam marcar as opções “Concordo totalmente”, “Concordo razoavelmente”, “Concordo parcialmente/ Discordo parcialmente”, “Discordo razoavelmente”, “Discordo totalmente” ou “Não se aplica”. “Temos uma amostra de mais de 1.700 pares tutor-cão”, conta a professora Carine.

O que a pesquisa revelou?

Os cientistas observaram que, no Brasil, os cães de tutores mulheres, os castrados, e os que vivem sem a companhia de outro cachorro são mais medrosos. Eles também constataram que os cães mais velhos apresentam menos energia e um risco potencial maior de desenvolver depressão. No entanto, a tendência a ser mais entusiasmado e cheio de energia é mais relatada em animais que vivem no ambiente interno da casa (e não no quintal ou na garagem) – o que é uma regra no Reino Unido, mas menos comum no Brasil. 

Outra curiosidade revelada é que os cães sem raça definida são, ao mesmo tempo, mais medrosos, mas também mais cheios de energia e entusiasmados do que os cães de raça. A pesquisadora sugere que a explicação para isso talvez seja um possível passado nas ruas ou em abrigos onde, naturalmente, o ambiente é muito mais desafiador e pode gerar muito mais estresse para esses animais.

Para a bióloga Natália de Souza Albuquerque, pesquisadora pós-doc do Instituto de Psicologia da USP e segunda autora do artigo, o instrumento de avaliação poderá ainda ser útil em pesquisas científicas e na prática dos consultórios veterinários. “Entender de que forma os cães percebem e respondem aos estímulos de seu mundo físico e social não somente possibilita uma melhor compreensão do comportamento e da cognição animal, mas também permite que criemos formas mais positivas e eficientes de interagir com esses animais e, assim, garantir seu bem-estar e boa qualidade de vida”.

Três perguntas para a especialista

Nós entramos em contato com a professora Carine Savalli Redigolo, autora do artigo, para saber um pouco mais sobre esse importante estudo: 

– Como surgiu a ideia desse estudo (e a parceria com pesquisadores estrangeiros)?
A avaliação de temperamento/comportamento de cães por meio de questionários respondidos pelos tutores é uma estratégia bastante usada na língua inglesa. Sentimos a necessidade de ter um questionário em português, e para isso, não basta somente traduzir o questionário, é necessário analisar a validade e confiabilidade do questionário, se ele está realmente medindo aquilo que ele se propõe a medir, que foi o que fizemos. O professor Daniel Mills (da Universidade de Lincoln) colaborou com nosso estudo pois ele foi um dos autores desse questionário na língua inglesa.

– O que essa pesquisa pode trazer de benefícios para os médicos veterinários e pais de pets?
O questionário PANAS (Positive and Negative Activation Scale), validado para a língua portuguesa e cultura brasileira, é respondido pelo próprio tutor, que é quem mais conhece o cão e presencia diariamente suas respostas a diversos estímulos. Os resultados obtidos a partir desse questionário pode ser usado por profissionais do comportamento animal, como veterinários comportamentalistas, para avaliar a sensibilidade e tendências comportamentais dos cães, o que pode auxiliar no manejo desses animais. O questionário validado também pode ser usado em novas pesquisas.

– Quais são os próximos passos?
Temos outras pesquisas em andamento sobre a relação entre os cães e seres humanos, e usaremos o questionário validado para investigar associações com o temperamento dos cães.

Sobre o autor

Anderson Mafra

Anderson Mafra

É jornalista apaixonado por animais, comunicação, música e não perde um concurso cultural (na verdade já perdeu vários). Curioso de mão cheia quer saber sempre mais e compartilhar conteúdo, dicas e curiosidades do mundo pet. É um petlover assumido, sem chance de reabilitação.

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