Cão abandonado pela família por ser surdo é adotado por estudante que também é surdo

Infelizmente, assim como muitas pessoas, os pets também sofrem preconceito por ter algum tipo de deficiência. Diversos casos de abandono já foram noticiados no Brasil referente a pais que abandonam seu cãozinho após a descoberta de alguma doença ou por ter sofrido algum tipo de acidente e, consequentemente, tornando-se deficiente, seja auditivo, visual ou físico.

Este é o caso de Jögan, um cãozinho de 11 meses que foi devolvido ao abrigo por uma família após descobrirem que ele era deficiente auditivo. Apesar desse impasse, a história do animal teve um final feliz: João Gabriel Ferreira Duarte, estudante de Doutorado da Universidade Federal de Santa Catarina, que também é deficiente auditivo e mora com outras três pessoas, sendo dois surdos e o terceiro, filho de pais surdos, decidiu adotar o cachorro que tinha retornado à Diretoria de Bem-Estar Animal (DIBEA), local onde estava amparado.

Em entrevista para a Petlove, João conta que eles já moram com uma cadela, mas ele tinha o desejo de adotar um cãozinho que também fosse deficiente auditivo. “Eu tinha comentado com eles que queria adotar um cão surdo igual a gente. E então um amigo me alertou sobre um cachorro surdo nas redes sociais da DIBEA”, disse.

Foto: João Gabriel Ferreira Duarte/Acervo Pessoal

Assim que soube da história de Jögan, o estudante foi até o local onde ele estava abrigado e realizou todas burocracias necessárias para que a adoção ocorresse. “Em três dias, nos mandaram mensagens pelo WhatsApp com algumas perguntas e fomos aprovados. Também explicamos que éramos surdos, e que já tínhamos nossa cadela. Usamos língua de sinais brasileira (Libras), e achamos que seria bom para o Jögan”, conta.

Em relação ao nome incomum, João diz que o cão, antes chamado de “Pirata”, teve seu nome escolhido por se assemelhar a um desenho japonês. “Eu dei o nome porque eu estava lendo sobre Jögan, um tipo de olho. É de um anime japonês que estava acompanhando uns dias antes de saber do Jögan. Aí quando o vi, de cara me recordei do anime. Por causa do olho que é bem parecido”, afirmou.

Foto: João Gabriel Ferreira Duarte/Acervo Pessoal

Apesar da surdez, o cãozinho leva uma vida inteiramente normal e, de acordo com o estudante, ele não necessita de qualquer cuidado especial, muito pelo contrário! Justamente pela deficiência, Jögan tem os sentidos bem aguçados, como visão, olfato e tato, que permitem que ele perceba com facilidade tudo o que está acontecendo ao seu redor.

FALA, ESPECIALISTA!

Para saber mais, conversamos com a Médica Veterinária da Petlove, Mônica Calligaris, sobre algumas dúvidas recorrentes sobre o assunto, afinal, é importante que todos os pais de pet entendam sobre o assunto, já que todos os cães podem adquirir a surdez ao longo da vida.

Como é possível detectar a surdez em um cão?

Mônica Calligaris: um cão pode nascer surdo ou adquirir a doença ao longo da vida, por uma série de fatores, sendo a otite uma das causas mais conhecidas. Em qualquer dos casos, é possível identificar que o cão está surdo por sinais como: tempo exagerado de sono,coceira frequente nas orelhas, podem apresentar mau cheiro e sensibilidade ao toque (dor), latidos em excesso e sem motivo aparente, desobediência a chamados, além, principalmente, da indiferença aos demais sons e não acordar quando for chamado pelo tutor vocalmente. Na parte clínica, em relação a exames, hoje pedimos a tomografia, mas alguns laboratórios podem realizar o ultrassom do crânio. Em minha opinião, em termos de exames de imagem, a tomografia é bem melhor.

Sobre o dia a dia, quais os cuidados que os pais devem ter ao adotar um cão surdos?

Mônica Calligaris: os cães, mesmo perdendo a audição ou nascendo surdos, eles podem contar com o sentido do olfato e da visão. Os cuidados especificamente com esse animais são os seguintes: passeios em coleira para que não se sintam desorientados, colocar plaquinhas de identificação, caso se percam por algum motivo e, principalmente, treinar os seus sentidos. Ao cuidar de um cão surdo, é óbvio que ele não poderá responder aos chamados, e para que  se aproxime, ele deverá ver ou sentir o cheiro da pessoa. Os cães são muito bons em recordar aromas que são familiares. Por exemplo, na hora da comida, o pai só terá que colocar a ração em seu prato e esperar alguns instantes. Só alguns segundos se a ração for úmida ou a comida estiver quente. Se a pessoa quer chamar a atenção, basta ficar próximo ao cão, para que ele veja ou reconheça pelo cheiro. Também pode ensinar um tipo de linguagem de sinais que seja simples e que o cão possa compreender rapidamente. Muitas destes sinais já são utilizados no dia a dia. Uma dica muito importante: nunca abordar um cão surdo por trás, pois ele pode se assustar e, automaticamente, atacar. Por isso, o indicado é se aproximar sempre devagar, de forma que o cão o veja com clareza. Se ele estiver dormindo e deseja acordá-lo, nada de movimentos bruscos, é melhor acariciá-lo suavemente e colocar a mão perto do nariz dele, para que ele possa identificar o cheiro do pai ou pessoas do convívio dele.

O que uma pessoa que deseja adotar um cão surdo precisa saber?

Mônica Calligaris: antes de mais nada, amor, carinho e dedicação! Em primeiro lugar, precisa de adaptações no ambiente, mas não necessariamente vai requerer tratamento veterinário específico e contínuo. Conversar com um especialista sobre as necessidades de um cachorro deficiente é importante para estimar os gastos e cuidados que a pessoa terá com o cão. Em alguns casos, cachorros deficientes podem levar mais tempo e ter mais dificuldade para se adaptar. E os pais também terão que fazer algumas adaptações. Por conta do olfato aguçado desses pets especiais, é possível ensiná-los a fazerem suas atividades normalmente, como beber água ou mesmo fazer xixi no lugar certo.Mas é preciso ter um acompanhamento de um profissional da área e, em alguns casos, disponibilidade de tempo e de dinheiro.

Por fim, um cachorro surdo consegue realizar suas atividades normalmente, já que o olfato e a visão estão presentes. Muito importante estimular esses sentidos. Como nossa voz é uma forma importante de estabelecer vínculo com os cães, fazer bastante carinho para compensar a ausência dela.

 

Sobre o autor

Gabriel Arruda

Gabriel Arruda

É estudante de Jornalismo, apaixonado por animais e esportes. Está sempre em busca de novos desafios, justamente pela curiosidade que o toma conta. Pai de um Beagle chamado Johnny, mais conhecido como "o Destruidor".

32 Comentários

  • Tenho um cãozinho de 14 anos, que além de surdo, está ficando cego. Mas está se adaptando bem e vivendo normalmente, apenas temos que ter mais atenção e estar sempre por perto para ajudá-lo.

    • Olá, Fernanda

      Obrigado pelo comentário. Infelizmente é comum cães idosos terem esses tipos de problemas. É preciso ter muita atenção e carinho para cuidá-los da maneira que merecem.

      Continue nos acompanhando, abs.

  • Que história linda, de puro amor! Só não entendo como uma pessoa pode ” devolver” um animal por ele ser surdo, como se fosse um produto que considera defeituoso. Felizmente este mundo ainda tem muita gente boa!

  • Tb tenho uma cachorra igual. De ollhos azuis cor do ce’u. Se chama branca. Faz leitura labial. Atende aos meus gestos.. e um anjo branco. Estava abandonada mesmo. Eu a amo d mais. E td de bom. Parabens a vc.

    • Olá, Ana

      Obrigado pelo comentário. A deficiência faz com que eles desenvolvam outros sentidos, que ajudam-os a ter uma vida saudável assim como os outros cães.

      Continue nos acompanhando!

      Abs.

  • As pessoas tem um certo preconceito com relação aos cães deficientes. Não ter a audição não o faz incapaz, pelo contrário, o torna mais atento e ativo. Tenho uma dogo argentino surda, e através de sinais ela atende perfeitamente. Super carinhosa e esperta, ganhei ela porque ninguém quis comprar por causa da sua deficiência. Sou muito feliz em ter a Rubi perto de mim, não sei o que eu seria sem Ela.

    • Olá, Juliana

      Obrigado pelo comentário. Infelizmente, assim como as pessoas, os pets sofrem muito preconceito por serem deficientes 🙁

      Continue nos acompanhando!

      Abs.

  • Estou muito feliz e emocionado com essa história. Isso que reacende a esperança em nós, pessoas especiais que se encontram com animais em histórias igualmente lindas especiais. Parabéns à toda a família que adotou esse anjo especial. Sejam muito felizes!

  • Parabéns amigo, você só tem a ganhar com essa atitude linda, já quem fez isso, coitado dele, mal sabe o que terá que passar na vida para pagar o que fez. sinceramente acho ótimo.

  • Olá! Muito bacana a atitude de adotar o bichinho surdo! Infelizmente tem gente ignorante q não respeita os animais..mas acredito q algum dia irao perceber essa desumanidade,pois é 1 ser vivo ,e merece ser feliz..

  • Tenho uma cadela bull terrier surda. Ela foi devolvida ao criador quando o comprador descobriu que ela era surda. Já estava com 3 meses e o comprador sequer deu vacina para ela, pode?
    Através da veterinária que atende os meus outros cães, descobri que o criador estava doando, e me dispus a adotá-la. Ela é muito dócil, meio bruta e estabanada como todo bull terrier, mas mansa e dócil. Nos comunicamos visualmente e por toque, desenvolvemos a nossa liguagem de sinais. Ela sempre dorme comigo na minha cama e convive bem com os outros cães, uma boxer (falecida recente) e um vira-latas porte pequeno (só uma bull terrier idosa que não convive com ela). É muito fácil a minha comunicação porque eu já faço sinais quando dou algum comando verbal para os outros cães, não a trato tão diferente do que trato os outros. Só em algumas ocasiões que faço contato pelo tato para ela entender o que estou “falando” com ela.

    • Boa tarde, Aleimar

      Obrigado pelo comentário. A sua história e a do Jögan mostram que os os cães deficientes levam uma vida inteiramente normal e não merecem sofrer qualquer tipo de preconceito.

      Continue nos acompanhando, abs.

    • Boa tarde, Lúcia

      Obrigado pelo comentário. O resgate e adoção de cães em situação de rua é um trabalho admirável, parabéns!!!

      Continue nos acompanhando, abs.

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