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Nunca mais quero ter outro cachorro

Por Jéssica Vieira -

Estava caminhando no parque quando um senhor se aproximou, com olhos cheios d’água, perguntando o nome da minha cachorra. Antes de respondê-lo, ele anunciou com a voz embargada: “Perdi a minha há oito anos e nunca mais quero ter outro cachorro. Não consigo, não tenho coragem”.

O choro, copioso, também me levou às lágrimas e à lembrança de que, por quatro anos, esbravejei a mesmíssima frase. “O amor que ela te deu vai acordar a sua coragem na hora certa”, eu lhe disse baixinho. Ele riu.

cachorro olhando para o céu dentro de um carro

Lilica chegou à minha família em 2004, do jeito mais errado possível. Pouco mais de um mês de nascida, sem vacina, sem vermífugo, sem o consentimento de todos – o meu, no caso -, comendo ração imprópria para a idade e com a promessa de que “vai ficar pequenininha”. Vira-lata preta e branca, a mais bonita da ninhada da cachorra da vizinha, nossa primeira canídea.

O médico veterinário deu as vacinas e o vermífugo, mas nenhuma outra informação. Sem restrição de espaço, ela fazia xixi e cocô por todo o corredor de entrada. Não podia ver uma meia, um papel higiênico, um chinelo nem os cabelos de um humano deitado no chão. Para ela, tudo era festa, inclusive biscoitos cream cracker com margarina na hora do lanche. Eu disse, tudo errado.

Aos quatro meses, enquanto eu virava mais uma madrugada estudando para as matérias da universidade, ouvi um estrondo. Lilica tinha caído do alto da escada, bem à minha frente. Dois metros e meio de altura, nenhum arranhão, nenhuma pata quebrada, mas, naquele momento, meu coração me avisou: ela era um membro da minha família.

Passava o dia grudada à minha mãe e sabia até mesmo quando ela estava se arrumando para sair ou para dar uma simples volta pela redondeza. No primeiro caso, ela transitava pela casa tranquilamente e ia para o meu quarto. No segundo, tentava – muitas vezes com sucesso – passar pela grade do portão para encontrar sua humana favorita da vida.

Foi assim que, infelizmente, ficou prenhe quatro vezes. Naquela época, assim como muita gente, achávamos que o cio de uma cadela era apenas a fase de sangramento. Como disse, tudo errado.

Depois de castrada, começou a frequentar a barraca de churrasquinho da rua, com o melhor deita automático que já vi na vida. Às terças e quintas, ela estava lá, recepcionando a clientela. No fim de semana, também era presença vip nas quadras da pracinha. Todo o bairro a conhecia, com direito até mesmo à comunidade no Orkut. “Quem conhece Lilica?” Quinhentas pessoas, um fenômeno no início do século XXI, quando pouco se falava sobre cães no mundo digital.

Mas minha companheira de todas as noites e madrugadas tinha uma característica muito particular. Ela atravessava a avenida mais movimentada da cidade para me buscar no ponto de ônibus, todos os dias. Sozinha, sem comando, sem treino técnico, sem guia. Tudo errado, eu sei. No entanto, confiava mais nela que em muito ser humano com visão perfeita e, constantemente, pensava em como pude ser contrária à permanência dela em minha casa.

Ela sabia que eu não enxergava bem, sabia que as brincadeiras comigo eram diferentes, sabia que eu precisava de companhia e apoio durante toda a graduação, os estudos para concurso, para o mestrado, para intercâmbios. Sabia até que precisava sair de cena quando eu não estivesse por perto, para que, diante de tantas coisas que já não enxergo tão bem, não precisasse ver a fragilidade da vida.

Em fevereiro de 2016, em plena viagem de carnaval, minha mãe fez de tudo para que eu não soubesse, mas recebi a seguinte mensagem de uma prima: “Já soube de Lilica e sinto muito”.

Foram doze anos e, em todos os dias de lá pra cá, a lembrança dela ainda vive em mim. Em cada parque, em cada praça, em cada espetinho que eu vejo pelas ruas, em cada casa com portão por onde, facilmente, ela escaparia.

Eu não me despedi da minha melhor amiga e, por muito tempo, também disse que não teria coragem de ter outro cão. A dor, de fato, é muito grande, mas, se estou lhe contando tudo isso, é porque o amor que ela me deu acordou minha coragem na hora exata. Lilica saiu de cena em plena festa e essa aqui do parque é a Zoé.

Ele fez um carinho na cabeça da minha Border Collie marrom e branca, enxugou as lágrimas e disse: “Lindo nome. Talvez um dia a minha coragem acorde, né? Obrigado.”

Vai acordar. Toda coragem acorda depois do primeiro cão.

Por Jéssica Vieira

É jornalista, pós-graduada em Novas Tecnologias e mestre em Letras - com ênfase em Análise do Discurso - pela UFS. Nordestina arretada, taurina convicta, faladeira ao extremo e míope incurável, é a humãe e treinadora da Zoé, a primeira Border Collie cão-guia do Brasil.

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2 comentários

  1. Kris Santana disse:

    Emocionada com esse texto! Vc realmente entendeu o que é amor! Parabéns Jéssica linda homenagem a Lilica e que zoé lhe proporcione os melhores momentos da sua vida!

  2. Monique Garcez disse:

    Que texto mais lindooo! Parabéns, Jéssica, por tanto esmero e por ser um humãe tão maravilhosa. ♥️

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