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Dominância: corra disso agora mesmo!

Será que precisamos ter um comportamento dominante com os cães para que eles nos “respeitem”? Nossa colunista Luiza Cervenka vai te explicar tudo o que você precisa saber.

Por Luiza Cervenka -

Você precisa ser o alfa da matilha para que seu cachorro te respeite?

Um estudo, de metodologia duvidosa, iniciou um grande mito do comportamento canino: cães vivem em grupos hierárquicos. Vamos esclarecer essa falácia de uma vez por todas?

Recentemente eu ministrei uma formação para adestradores, dog walkers e pet sitters. Quando chegou na aula sobre comunicação canina, muitas das explicações ou observações dos alunos culminaram para a teoria da dominância ou hierarquia. Então, precisei fazer um adendo e discutir esse grande mito do comportamento canino.

4 cachorros correndo no jardim

Vamos a uma historinha

Os cães não são descendentes dos lobos. São parentes próximos. Não se sabe, ainda, qual a espécie que deu origem aos cães. Há diversas semelhanças entre os lobos cinzas e os cães domésticos. Mas isso não quer dizer que cães são lobos. Muito menos podemos basear as pesquisas de cães, com lobos. Foi exatamente o que o biólogo e pesquisador sobre lobos fez em 1970. 

David Mech juntou alguns lobos não aparentados em um espaço reduzido e observou seus comportamentos. Depois de diversas disputas por recursos (alimentação, local de descanso e prioridade de cópula), o pesquisador apontou como resultado que lobos vivem em hierarquia, onde há um macho alfa, que domina o grupo por meio de atitudes agressivas. 

Se não bastasse, o biólogo extrapolou a sua observação para os cães. Já que lobos e cães podem compartilhar algumas semelhanças. Mas temos grandes problemas com a metodologia usada. Vamos aos principais pontos.

Para estudar um animal social em grupo, é preciso buscar animais aparentados. Não existe grupo de lobos aleatórios, que nunca se viram. Assim, juntar lobos desconhecidos já é o primeiro passo para um grande erro de observação.

Na natureza, evita-se ao máximo a briga, o conflito físico, já que qualquer rusga pode acarretar em um machucado. Sem acesso a um médico-veterinário, as feridas podem infeccionar e colocar em risco a vida do animal.

Assim, quando há uma divergência entre machos, por exemplo, um dos animais sai do grupo para formar uma nova linhagem. No experimento de David Mech, isso era impossível, já que todos os lobos estavam confinados no espaço de pesquisa.

Ainda assim, não seria possível afirmar a formação de hierarquia em lobos. Mas extrapolar isso para cães beira o exagero. Não, não foi feito nenhum experimento com cães para averiguar essa teoria.

O grande problema é que a teoria da hierarquia foi levada para diversas entidades de treinadores e criadores de cães. Os quais propagaram o mito aos quatro cantos do Mundo.

Tempos depois, o mesmo pesquisador gravou um vídeo pedindo desculpas pelo erro, confirmando que não há hierarquia em lobos, muito menos em cães. Porém, esse vídeo foi pouco divulgado. E quem é que gosta de grandes mudanças, quando diversos profissionais, renomados e famosos, se utilizaram da teoria para basear seus trabalhos e protocolos.

Assim, ficou provado que cães não formam matilhas hierárquicas. Desta forma, não há alfa ou líder da matilha. Muito menos os cães se utilizam de agressividade para dominar outros cães do grupo. 

Então, quando você escutar as frases abaixo, reflita:

  • “Meu cão é bravo porque tenta ser o líder da matilha”
  • “Meu cão me morde porque quer mostrar quem manda”
  • “Tenho que andar na frente, para mostrar ao meu cão que eu sou o líder”
  • “Chamei um adestrador forte para meu cão ter medo e obedecer o líder”

David Mech explica que, em lobos, o sistema social é bastante semelhante ao humano, no qual há uma mãe lobo e um pai lobo. Este casal orienta e organiza o grupo. Mas se tiver um outro membro do grupo, que mostre maior aptidão na execução de uma determinada tarefa, ele seguirá adiante conduzindo aquele ofício.

Assim sendo, se seu cachorro está sendo agressivo, não é para disputar a liderança com você. Muitas vezes seu cão pode estar com medo de algo e aprendeu que ser agressivo tira-o da situação de medo. 

Mito resolvido, agora vamos oferecer uma qualidade de vida melhor para os nossos peludos?! Que tal aproveitar para enriquecer a rotina com brinquedos, mordedores e passeios?!

Por Luiza Cervenka

Luiza Cervenka é bióloga, com mestrado em Psicobiologia (comportamento animal), Pós-graduação em Jornalismo e doutoranda em Medicina Veterinária. Assina o blog Comportamento Animal do Estadão e tem quadro pet no Programa Revista da Manhã na TV Gazeta. Atende cães e gatos como Terapeuta Comportamental.

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