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Cão-guia e os aplicativos de mobilidade urbana

Por Jéssica Vieira -

Eu já havia lido e sido alertada sobre possíveis transtornos, mas acreditei, sabe-se lá o porquê, que não aconteceria comigo. Da primeira vez, o motorista resmungou e me perguntou se minha cadela soltaria muito pelo. Da última, já informado sobre tratar-se de uma cadela-guia, parou na porta da clínica veterinária e, ao vê-la, saiu em disparada, xingando e reclamando em alto e bom som sobre o seu porte na frente de todos. Entre os dois episódios, muitos outros.

Mesmo com conhecimento sobre os meus direitos enquanto pessoa com deficiência, passei a fazer parte da dolorosa estatística: “No meu carro, o cachorro não entra“. 

Essa tem sido a mensagem mais comum que usuários brasileiros de cão-guia recebem ao solicitar uma corrida nos aplicativos de mobilidade urbana. Aplicativos criados para, veja só, facilitar a locomoção de pessoas em todo o Mundo.

Seria irônico não fosse trágico, mas a verdade é que a tragédia já dura sete anos e parece não ter fim.

Isso porque mesmo fazendo parte da Política Nacional de Mobilidade Urbana desde 2012, os apps só chegaram ao Brasil em 2014 e, desde então, motoristas se recusam a transportar uma ferramenta legal de tecnologia assistiva, discriminando, constrangendo e pondo em risco deficientes visuais em todo o país.

Quando denunciadas, as plataformas argumentam que as informações sobre a Lei n⁰ 11.126/05 – que garante a entrada e a permanência de cão-guia em ambientes públicos e privados de uso coletivo – são transmitidas aos motoristas, mas estes rebatem os usuários de cão-guia, alegando que o veículo é próprio e que têm o direito de escolher se transportam ou não o animal.

Seria o direito à mobilidade urbana um privilégio dos que segregam ou um princípio baseado em exclusão numa sociedade feita apenas para os que enxergam?

Penso sobre isso toda vez que vejo um motorista reclamando da lei, tenho uma corrida cancelada ou notícias de outra pessoa com deficiência tendo que passar pelo mesmo constrangimento simplesmente para exercer seu direito de ir e vir com o mínimo de dignidade. Afinal de contas, transportar um cão-guia não é um favor, é uma obrigação e um exercício de cidadania.

Qual é o critério de mobilidade dentro do aplicativo de mobilidade? Será que as empresas têm mesmo consciência do que se propõem quando buscam facilitar a vida das pessoas diante dos problemas urbanos em que vivem?

A todo instante, nós, que deveríamos ser acolhidos com nossos cães, somos marginalizados à condição de não pertencimento a uma sociedade que visa incluir apenas aquilo que lhe surge como “normal“, ainda que o normal seja dar mobilidade a quem, de fato, precisa.

cão-guia acompanhando um deficiente visual em uma calçada

Dentro do carro

Muitas pessoas reconhecem, mas um cão-guia é socializado e treinado para entrar e permanecer em qualquer veículo de transporte com seu usuário, treinador ou família socializadora. Durante o trajeto, ele deve estar sempre no assoalho do veículo e ser acomodado de forma a preservar o seu bem-estar.

Assim, é importante o motorista ter empatia e conversar com o condutor para saber se é necessário afastar um pouco mais o banco, por exemplo. Também é fundamental que motorista ou outros passageiros não interajam com o animal, uma vez que a distração do mesmo compromete e atrapalha o exercício da sua função.

Leia também: Como vive um cão-guia?

Por Jéssica Vieira

É jornalista, pós-graduada em Novas Tecnologias e mestre em Letras - com ênfase em Análise do Discurso - pela UFS. Nordestina arretada, taurina convicta, faladeira ao extremo e míope incurável, é a humãe e treinadora da Zoé, a primeira Border Collie cão-guia do Brasil.

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Um comentário

  1. Analice Balthazar disse:

    Sensacional

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