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O tempo é sempre do cão

Eu me lembro direitinho de quando iniciei os treinos dos comandos de segurança com a Zoé. Como quase todo Border Collie criado com manejo adequado, ela aprendia tudo muito rápido: “senta”, “espera”, “vem”, “fica”, “gira”, “à esquerda” e até “xixi” e “cocô” por gesto e comando de voz… Mas havia uma grande dificuldade: o comando “deita”. 

Ele não saía com gesto, com comando de voz, com promessa, com reza, com absolutamente nenhum tutorial dos livros de adestramento. Eu tentava de todas as formas, mas ela não entendia. Olhava os outros cães e via que todos sabiam deitar por comando de voz, menos ela.

cachorro olhando para a janela

Aquilo começou a me angustiar verdadeiramente e até cogitei se tratar de dor, mas continuava repetindo enlouquecidamente “Zoé, deita!”, sem qualquer sucesso. Ao desabafar com uma amiga, grande estudiosa da raça, ela riu e me disse algo que virou um mantra: o tempo é sempre do cão.

Em suas orientações, ela me pediu para treinar sem emitir qualquer som. Eu não poderia falar com a Zoé enquanto estivesse treinando esse comando específico. “Você consegue passar um dia interagindo exclusivamente por gestos, sem falar com a Zoé?”, ela me perguntou. Eu, que falo pelos cotovelos, disse que me esforçaria e, de fato, foi um esforço homérico. No fim do dia, ela estava deitando por gesto.

Fiquei incrédula, mas entendi o recado. Na ânsia de se comunicar com os cães, a gente fala o tempo todo, exige pressa e uma compreensão humana que obviamente eles não têm. “O tempo é sempre do cão”, repito e reverbero diariamente para ensinar aos outros, mas também para nunca me esquecer.

Quantas vezes nos perguntamos quando o nosso cão aprenderá aquele truque que o cachorro do vizinho faz tão bem, quando conseguirá ir a locais pet friendly sem se estressar, quando ficará sossegado sozinho em casa, quando aprenderá a dar a pata, quando será um “cão perfeito“. A gente pode fazer cursos, ler, estudar, dar o máximo de si, mas o tempo? O tempo é sempre do cão. 

Quando fomos fazer a habituação da Zoé no aeroporto, antes do embarque no avião, o chefe de segurança me perguntou quanto tempo demoraria para que a Zoé se familiarizasse com o ambiente. Prontamente, respondi que poderia levar horas, alguns dias, semanas… o tempo só ela poderia nos dizer, pois o tempo é sempre do cão.

Repeti essa frase em várias situações e em todas elas me certifiquei de que não poderia ter recebido melhor conselho para uma relação multiespécies.

Para tudo, em qualquer situação, seja ele filhote, jovem, adulto ou idoso, seja ele com ou sem raça definida, lembre-se: não é o tempo do relógio, do seu compromisso ou da sua vontade em ver o resultado. É para a vida: o tempo é sempre do cão.

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Sobre o autor

Jéssica Vieira

É jornalista, pós-graduada em Novas Tecnologias e mestre em Letras - com ênfase em Análise do Discurso - pela UFS. Nordestina arretada, taurina convicta, faladeira ao extremo e míope incurável, é a humãe e treinadora da Zoé, a primeira Border Collie cão-guia do Brasil.

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