Conheça Zoé, a primeira Border Collie cão-guia do Brasil

“O cão-guia é capaz de proporcionar mobilidade numa sociedade que não oferece mobilidade”, relata Jéssica Vieira, de 37 anos, deficiente visual e tutora da Zoé, a primeira Border Collie cão-guia do Brasil.

O que mais chama a atenção na história da jornalista que mora em Aracaju (SE) é que ela treinou “sozinha” a Zoé para auxiliá-la no dia a dia.

Jéssica Vieira e Zoé, a Border Collie cão-guia, abraçados

Foto: Marcelle Cristinne

Senta que lá vem história…

Jéssica Vieira é deficiente visual desde o seu primeiro dia de vida, em decorrência de uma toxoplasmose congênita, que fez com que ela tivesse apenas 10% da sua visão. Porém, ela apenas soube disso aos 24 anos.

“Só vim saber que o meu caso se enquadra na Lei quando passei no primeiro concurso público, em 2008. Fiquei nas primeiras colocações e a perícia médica barrou a minha posse por não saber como eu tinha conseguido alcançar aquela classificação. Foi ali que eu descobri, de fato, a minha deficiência, pois os meus médicos nunca haviam me dito”, contou.

Quase 10 anos depois, a jornalista, após entender um pouco mais sobre a sua deficiência e as dificuldades de mobilidade do dia a dia, entrou em contato com alguns institutos de cães-guia do Brasil. Contudo, todos negaram o auxílio devido à autonomia que ela tinha sem a presença de um cachorro.

A adoção da Zoé, a Border Collie cão-guia

Foi a partir daí que ela resolveu “fazer justiça com as próprias mãos”. A aracajuana soube que o treinamento de um cão-guia poderia ser feito por um adestrador autônomo. Dessa forma, ela buscou a ajuda de seu médico oftalmologista e de um profissional em comportamento canino, que a indicou um Border Collie para ser seu companheiro.

“Contei com a ajuda do meu oftalmologista, que me explicou detalhadamente como o meu olho funciona e, com base em tudo o que vejo e não vejo, coloquei no papel todas as minhas necessidades e entreguei a uma treinadora, que me treinou para treinar a Zoé. Eu selecionei, socializei e treinei o meu próprio cão-guia”, disse.

Zoé, a primeira Border Collie cão-guia, sentada em uma praça

Foto: Marcelle Cristinne

Jéssica diz que tem uma boa autonomia sem Zoé. Porém, a ajuda dela melhora – e muito – a sua qualidade de vida. “Eu consigo, sim, fazer tudo o que eu faço hoje sem a Zoé, mas eu faço infinitamente melhor com ela. Eu tenho um celular que me atende muito bem hoje. Mas se a empresa lançar um melhor, capaz de me proporcionar um bem-estar melhor, por que eu vou continuar na mesma situação?”

As dificuldades de um deficiente com cão-guia

Se engana quem acredita que ter um cão-guia ao lado acaba com qualquer dificuldade. A jornalista diz que os deficientes ainda sofrem muito preconceito em locais públicos. “Eu nunca fui barrada com a Zoé, mas enfrento alguns ‘olhares‘. O cão-guia é barrado muitas vezes por pôr à tona um problema social, que é a deficiência. Muitos estabelecimentos, por serem obrigados a nos receber, nos tratam de forma diferente dos demais”.

Ela também destaca que as condições urbanas nas cidades brasileiras são fatores mais limitantes do que a própria deficiência visual.

Apesar disso, a principal dificuldade enfrentada por deficientes visuais ainda é conseguir um cão-guia. “A inclusão é um dever social. Logo, a questão do cão-guia como garantia de tecnologia assistiva e acessibilidade à pessoa com deficiência visual deveria ser de responsabilidade do Governo. Os institutos existem e desempenham um trabalho sério, mas lidam com números catastróficos. São 6,5 milhões de deficientes visuais e cerca de 200 cães-guia em atividade”, destaca a tutora da Zoé.

Jéssica e Zoé atravessando a rua

Foto: Marcelle Cristinne

Quebrando padrões

A história de Jéssica e Zoé serve como inspiração para muita gente. No perfil da Zoé no Instagram, já são mais de duas mil pessoas acompanhando a rotina dessa dupla. “É muito gratificante ver outras pessoas com deficiência se inspirando no meu olhar sobre o mundo, na minha autonomia e vontade de viver apesar de qualquer diagnóstico. Diagnóstico não é destino, né? Não dá para fazer um bocado de coisa com uma limitação visual, é verdade, mas dá pra fazer várias outras e são elas que importam e merecem a nossa batalha”, conta Jéssica.

Cada deficiente visual é único, cada história é única, cada cão-guia é único e, enquanto dupla, queremos mostrar que é possível enxergar além das convenções , dos rótulos, dos padrões.

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Sobre o autor

Gabriel Arruda

É Jornalista, apaixonado por pets e esportes. Está sempre em busca de novos desafios, justamente pela curiosidade que o toma conta. Pai de um Beagle chamado Johnny, mais conhecido como "o Destruidor".

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