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Problemas comportamentais mais observados em cães na pandemia

Por Luiza Cervenka -

Durante a pandemia, até o “cachorro do quintal” ganhou o sofá da casa. Em decorrência da carência e solidão dos tutores, houve uma maior permissividade aos cães. Quem não tinha cachorro adotou ou adquiriu um. E aí está o maior problema: os “filhos da pandemia”. O período mais importante para socialização dos filhotes vai até o quinto mês de vida. Todavia, devido ao isolamento social, muitos cães não puderam passear, conhecer outros animais e nem se acostumar com o barulho frenético da cidade.

Os maiores problemas comportamentais que atendi ao longo da pandemia não foi devido a volta ao trabalho daqueles tutores que já tinham cães há anos. Mas daqueles cujos cães nunca souberam o que é ficar sozinho por longos períodos, sem seu tutor.

Desenvolver sintomas de angústia ao ser separado do tutor é uma das maiores preocupações de tutores e profissionais do comportamento. Mas, o que está por trás dos sintomas é algo muito mais grave: o apego inseguro e ausência de respeito ao espaço do animal.

Com os tutores em casa, isolados, muitas vezes só podendo receber carinho do seu cachorro, criou-se uma codependência afetiva. Se o cachorro estava quietinho deitado na caminha, o tutor logo chamava-o para ficar perto. Se o cão ia se alimentar sozinho, logo o tutor o chamava para compartilhar algo que estivesse comendo. Toda essa necessidade afetiva humana foi redirecionada ao cão. O qual, sem alternativa, passou a ficar cada vez mais perto do tutor, sem oportunidade para ficar quieto, na sua.

A maior característica do apego inseguro em um cão é a dependência da presença do tutor. O que ninguém fala é o quanto o próprio tutor é capaz de gerar esse tipo de relação com o cão, facilitando sintomas de angústia da sua ausência. E não precisa ser ausência de sair de casa. Muitas vezes, somente do humano se fechar no banheiro ou no quarto, o cachorro já enlouquece.

Sinais do cachorro dependente

  • Chora, late ou raspa a porta, quando fechada. Não admite ficar separado visualmente do tutor.
  • Segue o tutor pela casa. O famoso “cachorro sombra”. Mesmo que não vá atrás, só fica tranquilo com o tutor no seu campo visual.
  • Faz muita muita festa quando o tutor chega em casa ou mesmo com um “bom dia”.
  • Busca o tutor quando está com medo.
  • Tenta separar o tutor de outra pessoa ou cachorro. Mais interpretado como “ciúme”.

Cães adquiridos durante a quarentena podem apresentar

  • Problemas por conta da falta de socialização
  • Mais chance de medos e fobias, em geral
  • Dificuldade em receber visitas
  • Comportamento agressivo com faxineira e prestadores de serviço
  • Puxar no passeio

Problemas mais frequentes relacionados à separação

  • Vocalização excessiva
  • Destruição de móveis e itens do lar
  • Necessidades em locais indesejáveis
  • Fobias, apatia e depressão
  • Automutilação (lambedura de patas, cotovelos e flancos)

Comportamento inadequado e comportamento indesejado

Todos os cães têm necessidades comportamentais específicas, tais como roer, caçar, fuçar, brincar, comer, defecar e urinar. Tudo o que envolve os comportamentos naturais, mesmo que feito de uma forma “errada” pela visão humana, é tido como comportamento indesejado. Não queremos que o cachorro roa o sapato novo, mas roer é um comportamento natural. Como ele não encontra algo mais propício para liberar seu instinto canino, como um mordedor, ele rói o que encontrar. Mas, com isso, ficamos bravos, por não queremos que ele roa os nossos pertences. O comportamento não é um problema, apenas não foi exibido com algo que desejaríamos.

Um problema comportamental é aquele que afeta o bem-estar do cão. É natural que os cachorros brinquem com outros da mesma espécie. Todavia, se ele sente medo ou qualquer tipo de desconforto perante outro cão, isso coloca em risco o bem-estar dele, mesmo que em uma situação que seria “normal” para qualquer outro cão.

Um problema de comportamento deve ser avaliado e trabalhado junto a um profissional do comportamento. Já em um comportamento indesejado, devem ser analisados os comportamentos naturais do cão e o que é oferecido a ele para expressá-los.

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Por Luiza Cervenka

Luiza Cervenka é bióloga, com mestrado em Psicobiologia (comportamento animal), Pós-graduação em Jornalismo e doutoranda em Medicina Veterinária. Assina o blog Comportamento Animal do Estadão e tem quadro pet no Programa Revista da Manhã na TV Gazeta. Atende cães e gatos como Terapeuta Comportamental.

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